Não sei onde eu estava com a cabeça quando eu respondi aquele sms. Ok, eu sei: no travesseiro, ardendo em febre. Mas isso não teve nada a ver com a minha resposta.
T.:
how are you, made it to the new year alright?
since you'll apparently be homeless, but not home in Brazil at the time:
NORWEGIAN is currently offering København-Kiruna and back for DKK 1100, and I would really like to see the aurora borealis, so this is probably my best chance. If you should be like-minded, I would appreciate some company. I'm thinking a 4-day/3-night trip some time between Mon, Jan. 26th and Wed, Feb. 4th. Please reply until saturday noon if you're interested.
Cheers, T.
L.:
Hey!!!
I'm quite sick now... spent new year in Tchek Rep. and was too cold. And u? Where are u now?
I'm staying fo another semester here in CHP, so I need to find a place to stay... soon. I'll be homeless by the end of january.
I'm really up to the trip to see the aurora borealis! Just need to check the dates. But since classes start in feb 2nd, I think it is better to go by the 26th of Jan! Oh, I'm really exited about it now! Must be really beautiful!
We can meet up and arrange everything (if u are in CPH)!
Sick-dying cheers, L.
Claro que eu não fazia a menor idéia de onde ficava Kiruna. Google. A primeira palavra que apareceu foi Lapônia.
Espera. Lapônia é a terra do Papai Noel. Papai Noel vive no Pólo Norte. Consequentemente... Abri o mapa. “Fudeu” foi a única coisa que me veio à cabeça. Fui checar a previsão do tempo. Fudeu.
E lá estava eu, com uma malinha de mão, entupida de roupas para neve – emprestadas pela minha mais nova roomie e anjo-da-guarda, Julie – e um par de biquíni. Eu, um mestrando em física (e um ótimo futuro agente turístico) austríaco, uma sino-californiana do time nacional de esgrima, outra sino-californiana fanática de Berkley, uma doce menina do País de Gales que seria capaz de comer uma vaca inteira de uma vez se não fosse pelo fato de ela ser vegetariana e um advogado-wannabe consumista de Singapura. Todos sem nenhuma experiência com temperaturas polares.
- 21ºc. Era a temperatura que marcava quando aterrissamos na pista congelada. Como um avião consegue pousar numa pista daquelas, ou mesmo chegar a funcionar num lugar como aquele, está além da minha compreensão. De qualquer forma, fomos recepcionados por quase um metro de neve acumulada e a excitante informação de que não havia transporte público para o centro da cidade. Ainda bem que o câmbio é favorável em se tratando de coroas suecas e que os dez quilos a mais que eu carregava de roupa em meu corpo – 4 camadas de calças, 5 camadas de meias, 6 camadas de blusas e casacos e um coturno de fazer inveja a qualquer gótico – eram o suficiente para me manter viva. Sim, eu estava muito semelhante ao boneco da Michelin.
A cidade em si não tem nada de especial, a não ser pelo fato de que ela está afundando na terra devido à mineração desenfreada realizada nas décadas anteriores, o que inclui também a implosão da montanha que dava nome à cidade e o dreno do lago que servia como fonte de alimento para o povo Sami. Ah, sim, estão movendo todo o centro da cidade para outro local próximo.
Momento digressão: na visita à mina, nos foi mostrado o vídeo mais bias que eu já vi em toda a minha vida. Não bastasse destruir toda uma região e um povo, eles ainda se dizem amigos da ecologia. Hurray! Por outro lado, eles têm tecnologia o suficiente para você poder mandar e receber sms’s internacionais a 1,5km abaixo da terra. Hurray!
Tivemos a sorte - ou não - de pegarmos uma primeira noite com o céu limpo. Tínhamos dado início à caçada à Aurora Boreal.
Cerca de 45 minutos mais tarde terminamos a caçada.
Não, eu não vi a Aurora Boreal. Os ventos solares provavelmente não estavam a nosso favor naquela noite. Mas que me importava? Eu estava num bosque enterrado na neve, no meio do nada na Lapônia, tendo apenas para me guiar a luz do luar – que de uma forma muito estranha chegava a ser mais forte que a própria luz do sol.
Não, eu não tenho fotos. Descobri que o temporizador da minha 40D se recusa a funcionar em temperaturas abaixo de -20ºc.
Me restava então minha segunda opção de sonho-a-ser-realizado-no-polo-norte: andar de trenó puxado por huskies.
Não, eu não andei de trenó puxado por huskies. Andei de trenó puxado por vira-latas da neve. Nada contra os vira-latas. Amo cães de qualquer tipo (com exceção de chiuauas e schinauzers), mas os huskies são especiais para mim, e eu, sendo dona de um lindo exemplar, queria meu trenó puxado por eles. Ficou no querer. Mas nem por isso a experiência foi menos emocionante. E, hum, refrescante. Paramos em uma tenda Sami, feita de couro de alce e forrada com pele de rena, para nos aquecermos. Pela primeira vez na vida eu não condenei o uso de pele de animais. São realmente as únicas coisa que nos mantém quentes sob aquelas temperaturas. (Sim, eu continuo condenando o uso de peles pelas dinamarquesas que convivem com temperaturas que não passam dos -3ºc).
Foi aí que veio a grande surpresa da viagem. Foi então que encontrei a minha vocação. Pois, se nada mais der certo na minha vida, viro pilota de snowmobile. Como eu me diverti dirigindo aquilo, ainda que a velocidade não tenha passado dos 60km/h devido ao acumulo de neve. Para quem é viciada em dirigir e não pega num carro a mais de seis meses, aquilo foi o paraíso. Pena que o passeio teve que ser encerrado mais cedo devido às baixas temperaturas daquele dia. Não que eu esteja reclamando. Prefiro o clima polar de Kiruna ao tempo úmido, frio e com vendavais de Copenhague.
O projeto “vamos-tentar-ver-a-Aurora-Boreal” foi adiado para 2010, quando combinamos de encontrarmo-nos novamente no Canadá para mais uma tentativa. Até lá, ficarei de olho no céu nórdico.
Ah, sim. O biquíni foi usado. Para correr e pular na neve a -25ºc depois de uma sauna quentinha. Essa foi sem dúvida a experiência mais escandinava que eu já tive. Recomendo.